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  • V.

Uma ode (não-poética), talvez crítica.

Ok. Estamos em 2021, com o Covid-19. Obviamente que o delírio em que uma mudança de ano iria trazer a esperança desejada, foi um devaneio comum à mente mortal do ser humano. Continuamos acompanhados pelos já conhecidos tempos de incerteza, onde as inseguranças e a(s) ansiedade(s), os medos e angustias são comuns à ode universal.


Há muitas teorias, perguntas e respostas, poucas soluções e/ou resoluções. E, a verdade última é uma: as nossas sinapses avançaram em velocidade relâmpago contra tamanha falta de fé e esperança, chamar-lhe-ia: instinto de sobrevivência ou pulsão de vida (mental) contra a pulsão de morte (mental) de Freud.

Pintura de Eduardo Munch

Nos dias actuais, a nossa saúde mental vive desafios constantes ao sentido da vida (já como outros sobreviventes de momentos dolorosos da história) contra a dor mental. A ansiedade arrebatadora. A necessidade de protecção e ao mesmo tempo de elevada tensão, fazem parte de um quotidiano insipido.


A nossa mente é tão poderosa quanto a sua fragilidade, que ao ser exposta ao bombardeio matemático e calculista da necessidade politica se vê afectada e à margem do que tais factos evocam em nós, seres humanos. Crianças, adultos e seniores, a temer a sua vida ou a de quem amam. Há quem tolere tais eventos informativos, outros que são invadidos por um “monstro” invisível maior que o próprio “corona”.


Não devia ser permitida a pouca filtragem que a comunicação social possui sobre a nossa mente. Precisamos de mecanismos defensivos salutares e ter um bom funcionamento psíquico à prova de qualquer dose de ansiedade em momentos inesperados. Claro está, que estar informado é importante, dá-nos um sentimento de segurança e de controle. Mas lidar com os aspectos mais destrutivos de uma realidade externa invasora da realidade interna carecem de aliados extra à protecção da nossa saúde mental.


Estamos todos cansados. Uns mais do que outros, pelas vicissitudes quotidianas. E, obviamente que os especialistas em comunicação social não são psicoterapeutas, mas o facto é que este bombardeio de sensacionalismo catastrófico produz ecos mentais com elevados efeitos nocivos ao bem-estar psicológico individual de qualquer pessoa.


Mas as pessoas têm que perceber a realidade, ou não?


Sim. Mas para o desenvolvimento de um pensamento é necessário preconcepções e concepções, até podermos atingir uma maturidade capaz de criar conceitos. E, as crianças pequenas ainda não a tem, e precisam dos adultos cuidadores equilibrados para as ajudar a ter. A vida não pode ser apresentada como um “ensaio geral” onde se errarmos podemos improvisar e alterar as memórias, histórias com estória e História – mas a realidade actual invoca que sim – Que nós, (…) nós os seres humanos estamos em pleno tubo de ensaio. Idosos (na maioria) desprovidos de afectos e compreensão, entregues a uma solidão que os esmaga. Crianças à margem do que seria uma possível infância e adolescência. E adultos esmagados, carentes, esquecidos e em luta pela vida e/ou sobrevivência. Vivemos uma guerra branca, como lhe chamei inicialmente. Uma guerra sem rosto, mas com nome.

Pintura de Cruzeiro Seixas

Como apaziguar todo este turbilhão emocional?


Responderia com a Arte – Sim, a arte salva… dá esperança, alento, luta aos desafios mentais mais obscuros de Tanatos, contra um Cronos que não sossega; – Mas essa ficou hipotecada. #Nietzsche disse: “temos a arte para não morrer ou enlouquecer perante a verdade. Somente a arte pode transfigurar a desordem do mundo em beleza e fazer aceitável tudo aquilo que há de problemático e terrível na vida”, mas fecham-nos as livrarias. Os teatros. Os cinemas. Os espectáculos. A música. A Cultura. (Ainda bem que #comoequeobichomexe ajuda e junta multidões – não se sabe ainda bem se é a vontade de rir ou de desanuviar a mente em sobrecarga, mas a verdade é que isso não interessa nada, porque talvez seja apenas e somente o amor). E, um país sem cultura, é um país à mercê da pobreza. Um país sem cultura, é um país à mercê do analfabeto. Um país sem cultura, é um país refém.


E, posto isto (…) O que aconteceu esta semana ao nível da educação foi um claro exemplo da realidade interna Portuguesa. Subjugar crianças e adolescentes a um pleno vazio, sem rotinas, delegando nos seus responsáveis as possíveis respostas. Encerrar as escolas por uma questão de saúde pública sim. Fechar as escolas e desgovernar toda a capacidade visionária de construção educacional e cultural de seres em construção e formação é demonstrativo do país que estamos a viver. A capacidade de florescer a criatividade num país estimulante que promove a sua língua, a sua cultura, a sua arte, a sua história, a sua poesia, a sua música. Mas não, encerrados e encarcerados nos mares já há algum tempo navegados de Netflix, HBO, Minecraft, Fortinite, Among Us, Instragram, TikTok,…….. e infinitas possibilidades mais. Se há quem vá fazer diferente? Sim, mas não será a maioria e por isso, este intrínseco gosto ao fatalismo, provoca um medo português em assumir-se. É isto que é triste.



Pintura de Cruzeiro Seixas

A verdade é também que se um adolescente até é capaz de estar fechado um dia inteiro no quarto a ler, nas redes sociais, nas séries (mais ou menos) educativas e produtivas, a verdade é que isto é um tiro no escuro para tudo o que foi declarado educativo. A tudo o que foi expandido e repetido “mantenham as vossas rotinas”. 15 dias de férias diz o nosso Primeiro Ministro! Num momento de total alheamento e desresponsabilização. As nossas crianças e jovens não são tubos de ensaio. E os colaboradores do Governo tiveram mais que meses para preparar um restruturação do ensino, que tão orgulhosamente falavam. – é aqui que depois as linhas entrecruzados se entortam e são ténues.


Estamos enquanto adultos conscientes a apelar às capacidades de conter e tolerar as angustias dos mais jovens, a forçar-lhes e/ou incutir-lhes o sentido lato da resiliência. Se é mau? Não. Se é bom? Podia ser diferente. Ouvi várias vezes, “Vera, como é que vou aguentar outra quarentena?; Vera sabes que não vão ser apenas 15 dias, não sabes? (até eles sabem…)”e a resposta é apelar à verdade. Conter, compreender, ouvir e estar. Há miúdos com mundos internos vividos de traumas irreparáveis. O importante é então não os deixar sucumbir, nutrir, alimentar, fortalecer, esperançar e sobreviver vivendo o esplendor que é viver, como dizia o @José Luís Peixoto:


O único impossível é o que julgarmos que não somos capazes de construir. Temos mãos e um número sem fim de habilidades que podemos fazer com elas. Nenhum desses truques é deixá-las cair ao longo do corpo, guardá-las nos bolsos, estendê-las à caridade. Por isso, não vamos pedir, vamos exigir. Havemos de repetir as vezes que forem necessárias: temos direito a viver. Nunca duvidámos de que somos muito maiores do que o nosso currículo, o nosso tempo não é um contracto a prazo, não há recibos verdes capazes de contabilizar aquilo que valemos (…) Vida, se nos estás a ouvir, sabe que caminhamos na tua direcção. A nossa liberdade cresce ao acreditarmos e nós crescemos com ela e tu, vida, cresces também. Se te quiserem convencer, vida, de que é impossível, diz-lhe que vamos todos em teu resgate, faremos o que for preciso e diz-lhes que impossível é negarem-te, camuflarem-te com números, diz-lhes que impossível é não teres voz.


Atenção, não estou, nem quero discutir questões politicas e/ou governamentais, não considero a politica portuguesa pior que nenhuma outra, (também não é melhor claramente), é igual. Necessária, mas cíclica. Governar Portugal, é uma questão complexa. Porque quem está não o faz, são os outros sem rosto que tomam as decisões. Mas pergunto-me estaremos prontos para a tamanha crise de identidade, que se advinha?


Acabo com um excerto de um texto da Natália Correia, escrito há anos, mas tão actual:


As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, e Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas rupturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres. A indiferença que se observa ante, por exemplo, o desmoronar das cidades e o incêndio das florestas é uma antecipação disso, de outras derrocadas a vir. Natália Correia, citada por Fernando Dacosta in 'O Botequim da Liberdade'


Até breve, V.

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