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  • V.

E quando eu “hiperactivo”os meus professores? – a Perturbação da Hiperactividade e Défice de Atenção

“(...)Eu já não sei o que fazer... Nunca para quieto,

está-se sempre a levantar e a pedir para ir à casa de banho...

fala de mais e quando não deve, não se consegue concentrar,

os cadernos são uma vergonha. Depois claro tenho que o castigar

e escrever-lhe na caderneta!(...)”


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A Perturbação da Hiperactividade e Défice de Atenção (PHDA) é uma perturbação neurobiológica do desenvolvimento classificada na DSM-V pela presença de critérios de desatenção, hiperactividade e impulsividade de uma forma mais intensa e frequente que o habitual nos seus portadores ao longo do ciclo vital, embora seja mais vezes diagnosticado na infância e adolescência.

Existe muita controvérsia sobre o tema uma vez que é um dos problemas mais estudados contudo a sua multiplicidade conceptual, as resistências à intervenção e o abuso do seu diagnóstico tornam esta perturbação “na moda”, mas a realidade é que a PHDA é uma perturbação grave e tem consequências para quem dela sofre. De uma forma geral, estas dificuldades parecem resultar supostamente dos problemas de atenção, impulsividade e sobretudo da irrequietude motora, todavia estas três características acarretam também elas consequências de ordem secundária como é o caso da dificuldades na aprendizagem e na linguagem, problemas comportamentais, problemas nas suas relações sociais, dificuldades na realização académica e insucesso escolar (...), e é exactamente sobre este último que o presente texto se debruçará .

A PHDA como já foi exposto reflecte-se a vários níveis e reporta consequências em diferentes vertentes. No contexto escolar a PHDA emerge e torna-se um factor de risco para o insucesso escolar dadas as dificuldades ao nível da aprendizagem sentidas pelos alunos.

Os alunos com PHDA tem muita dificuldade em manter o foco na atenção sustida, motivar-se perante as tarefas, submeter-se a regras rígidas, esperar pela sua vez, organizar e monitorizar o seu pensamento e comportamento, devido aos défices nos processos executivos, o que leva a imensas dificuldades na realização de tarefas prolongadas, no planeamento do estudo, na organização do material escolar, na contenção dos comportamentos mais hiperactivos e impulsivos, o que leva a que surjam por parte dos docentes situações complexas e de grande frustração. Para além disto, o défice de atenção significativo prejudica a atenção selectiva e como tal origina distracção comprometendo os seus níveis de realização escolar muito abaixo do que seria expectável tendo em consideração as suas capacidades.

Como é possível percepcionar todos estes comportamentos apresentam uma limitação na escola, uma vez que é um contexto onde as crianças se devem comportar segundo aquilo que é aceitável “sentados, quietos e calados”, agravando-se a PHDA sempre que o número de comportamentos aceitáveis é mais restrito. Por esta razão as crianças com PHDA ao apresentarem problemas de comportamento e/ou dificuldades na aprendizagem tornam-se assim vulneráveis a este ambiente, entrando muito frequentemente em conflito (ex: suspensões, retenções, insucesso escolar, abandono escolar). As principais dificuldades de aprendizagem estão centradas na leitura, escrita e cálculo e isto deve-se essencialmente ao facto de não conseguirem atingir o seu potencial de aprendizagem pelas consequências advindas da PHDA, sendo frequentemente sinalizadas como crianças com Necessidades Educativas Especiais (NEE), embora cognitivamente sejam frequentemente consideradas dentro da média ou até superiores tendo em conta o seu quociente de inteligência.

Estas dificuldades resultantes da PHDA são muito punidas no contexto escolar pelas consequências e comportamentos que promove e frequentemente as crianças e jovens não cumprem porque não o saibam mas porque não conseguem agir de acordo com o conhecimento que tem sobre o tempo – o futuro – agindo por reflexo, impulso. Assim sendo as crianças e adolescentes hiperactivos nem sempre estão disponíveis para as aprendizagens e isto deve-se sobretudo ao facto de não estarem motivadas. Para além disto, a verdade é que actualmente o sistema escolar parece ainda não está capacitado para contornar os obstáculos e a punição é uma constante no recurso a estes alunos. É frequente os professores mencionarem e rotularem estes alunos como “mal educados”, “preguiçosos”, “caóticos”, “desatentos ou distraídos”, “descuidados e muito pouco organizados”, todavia esta falta de foco nos objectivos e a falta de persistência dos mesmos é também ela muitas vezes observada em espelho, ou seja, é também essencial que os professores (com auxilio) consigam ajudar estas crianças e jovens com foco e persistência.

Posto isto o professor torna-se preponderante e fundamental em qualquer diagnóstico e avaliação de crianças com PHDA, sobretudo porque são eles na maioria das vezes quem sinaliza as situações perante os sintomas apresentados e o que percepcionam da criança.

O papel do(s) professor(es) é crucial nos alunos com PHDA dado que são crianças e jovens que requerem um cuidado especial, caso contrário a resposta quer do professor como do aluno condiciona o desenvolvimento de sentimentos de aversão e/ou negativos assim como toda a sua acção e resposta perante determinada situação é colocada em causa. É complexo trabalhar com estes alunos uma vez que não é fácil captar a sua atenção e motiva-los, todavia há características que são fundamentais como sendo a disponibilidade, flexibilidade, tolerância, comunicação (reforçando a autoestima da criança e jovem ao mesmo tempo e de forma muito equilibrada com a sua firmeza), perseverança, motivação e formação específica, caso contrário poderá ser colocado em risco o trabalho de todo um ano lectivo, sobretudo no que concerne à relação professor-aluno e às respostas permitidas e proporcionadas perante as necessidades das crianças e jovens com PHDA. É necessário que os docentes sejam conscientes que os seus alunos com PHDA não agem deliberadamente de determinada forma somente porque “sim” mas porque existe uma problemática por detrás dos mesmos e que com uma intervenção poderemos diminuir os comportamentos indesejáveis e perturbadores do bom funcionamento escolar.

Como é isto possível? É verdade que leccionar perante uma turma de vinte e muitos alunos, com características de comportamento específicas e ainda ter alunos com PHDA nessa mesma turma, não é tarefa fácil e requer um grande esforço e compromisso por parte do docente contudo é essencial que através de estratégias e adequações pedagógicas consiga minimizar as dificuldades sentidas e não maximizá-las. É importante perceber o cerne da questão e procurar motivar estes alunos, esta “falta de persistência e de esforço nas tarefas” ocorre porque frequentemente para os alunos com PHDA estas não são atractivas e porque os efeitos imediatos relativamente à sua conclusão não é aliciante.

É sem dúvida na escola que mais facilmente se observam as consequências da PHDA, sobretudo ao nível da aprendizagem e do comportamento. Todavia é observado usualmente um desfasamento no que respeita à natureza e gravidade bem como aos recursos a serem utilizados pelos mesmos, nomeadamente as estratégias de intervenção mais adequadas. Quando a frustração do professor face ao aluno e vice-versa não é intervencionada esta pode criar um sentimento de hostilidade entre ambos. É então importante que em sala de aula o professor consiga ser interactivo, directivo e auxiliar o aluno com PHDA sobretudo recorrendo a um ambiente estruturado, adaptar materiais, saber contornar e compensar os comportamentos do aluno sempre que se verifiquem como sendo positivos ou desejáveis (premiar o esforço, elevar a autoestima e auto-conceito), pois só assim a criança ou jovem se sentirá motivado, ao fim ao cabo o grande objectivo é autoregular o aluno de forma autónoma mas contida. Por outro lado a punição dos seus comportamentos mais disruptivos levará a um possível insucesso escolar, ou seja, é fundamental centrar-nos nas potencialidades do aluno e não nos comportamentos de modo a que este aluno sinta isto e consiga alcançar o sucesso.

Também é fundamental com estes alunos que exista uma modificação de alguns comportamentos e como tal é essencial que com o auxilio do psicólogo, pais e professores sejam consistentes, nomeadamente a definir o comportamento problemático, saber quais as medidas e como podem surtir efeito, promover a intervenção desejada sempre recorrendo ao reforço (mais vale incentivar do que punir!) e ao mesmo tempo ir sempre avaliando as possíveis mudanças, o que pode ou não funcionar com o caso em questão na escola (sistema de pontos, time-out, auto-instruções, alteração na dinâmica de sala de aula e de avaliação (lugar, tipo de perguntas.....), sempre mantendo uma perspectiva de que a criança tem uma dificuldade especifica.

O recurso à comunicação é ainda um grande aliado nos casos com PHDA, isto porque se trata de um problema em que frequentemente não existe controlo sobre o que ocorreu. Assim sendo os professores devem incentivar os seus alunos a falar sobre o que aconteceu, sobre o que sentiram pois é muitas vezes a partir daqui que os alunos conseguem interiorizar o que fizeram e as suas consequências ao mesmo tempo que obtém maior controlo sobre o seu comportamento – orientar para a auto regulação, para objectivos futuros (ex: cumprir regras, completar tarefas, obter resultados positivos...) – e se promove o estabelecimento de uma relação mais empática.

Acrescenta-se ainda que a medicação, não produz ganhos cognitivos, todavia recorre-se à mesma porque de forma indirecta as crianças começam a ser encaradas mais positivamente pela comunidade escolar (professores, colegas e funcionários) permitindo o estabelecimento de relações sociais, todavia é importante salientar que quanto mais precocemente for diagnosticado o problema maior e melhor será a intervenção no que concerne à adaptação escolar e que esta deve ser holística e que associe diferentes estratégias e técnicas de modo a auxiliar tanto a criança como os seus cuidadores ao longo do seu desenvolvimento, não cingindo a criança a uma medicação que atenue os efeitos da sua problemática que “hiperactivam” os agentes educativos mas uma intervenção que beneficie a criança e o seu desenvolvimento.


Até breve,

V.

este texto foi escrito no dia: 25.11.2014

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